Cenário pandémico exige um novo paradigma na mobilidade para Almada

Artur Alfama, deputado na Assembleia Municipal de Almada pelo PAN                                                                                                                    

É urgente que o poder político, seja local, regional ou central, entenda de uma vez por todas a relevância na criação de um compromisso por um plano estratégico e integrado pela mobilidade

 

O concelho de Almada tem uma crónica insuficiência na oferta de transportes públicos. Mesmo as conquistas recentes, seja a ferroviária operada pela Fertagus, seja o metro de superfície concessionado à Metro Transportes do Sul, revelaram por parte do poder político uma reduzida ambição em dotar o nosso território de infraestruturas com o nível merecido pelas quase duas centenas de milhares de habitantes, às quais se juntam anualmente milhões de turistas.

Já o transporte fluvial definha com navios incapazes de dar resposta à procura, refém do ziguezaguear do poder político que, aliado a décadas de uma total ausência de investimento, demonstra atualmente a inexistência de planeamento estratégico para a mobilidade, conflituante com declarações proclamatórias pela descarbonização e combate às alterações climáticas.

Confrontados com um transporte ferroviário que contemplou com apenas uma estação o concelho mais populoso dos que serve a sul do Tejo, com um metro de superfície que ignorou dezenas de milhares de habitantes, com um transporte fluvial obsoleto e sem perspetivas de modernização no curto prazo, resta a muitos concidadãos o recurso ao transporte público rodoviário. E aqui chegados, deparamo-nos com o caos. As linhas que não existem ou que têm uma oferta subdimensionada face à procura, as carreiras que só constam dos horários e que deixam, diariamente, tantos cidadãos à beira do desespero. Como corolário, conforme já veio a público na comunicação social, viver a sul do Tejo começa a ser fator de ponderação nos processos de recrutamento laboral de empresas situadas na margem norte.

Num contexto particularmente complicado, a Transportes Sul do Tejo decidiu no início do mês de maio retomar as ligações a Lisboa, via Ponte Vasco da Gama. Tratamento distinto tiveram os habitantes do concelho de Almada que viram manter-se a supressão das carreiras via Ponte 25 de Abril (atualmente já retomadas em parte) empurrando-os para o transporte individual ou para os restantes operadores disponíveis. Tal facto foi motivo para, no passado dia 4 de maio, termos endereçado, entre outras entidades, à Administração da Transportes Sul do Tejo, uma “carta aberta” onde reivindicámos o imediato restabelecimento das mencionadas carreiras cuja supressão é particularmente gravosa para as populações da Sobreda, Charneca e Costa de Caparica, vítimas há décadas do domínio monopolista deste operador rodoviário.

Mas se o nosso Concelho tem um grave problema de mobilidade no que se refere às distâncias mais longas, estará ainda pior no que às intermédias diz respeito. O plano de ciclovias existente consiste numa “manta de retalhos”, criada sem qualquer nexo, desprovida de qualquer estratégia que a integre, como seria devido, nos diversas interfaces de transportes existentes. Sem qualquer manutenção, está hoje transformada, tantas vezes, em parque de estacionamento automóvel. Até na mais suave de todas as formas de mobilidade, a pedonal, Almada se transformou numa espécie de terra sem lei, com passeios ocupados por automóveis, obrigando a que pessoas com mobilidade condicionada se vejam obrigadas a circular pela estrada.

Em suma, é urgente que o poder político, seja local, regional ou central, entenda de uma vez por todas a relevância na criação de um compromisso por um plano estratégico e integrado pela mobilidade. Um compromisso imune a ciclos políticos, que se centre naquilo que é realmente relevante: a qualidade de vida e o bem-estar dos cidadãos. Tal apenas poderá ser alcançável com a adoção de políticas integradas e centradas na regeneração ecológica, onde a utilização de transportes públicos coletivos (distâncias longas) e das formas de mobilidade mais suave (distâncias curtas e intermédias), sejam generalizadas. É fundamental que o cenário pandémico em que vivemos promova um novo paradigma na mobilidade onde o investimento nas suas formas mais suaves (aumento do espaço pedonal e ciclável) possa assegurar o distanciamento social indispensável numa batalha que está longe de se encontrar ganha. Que a pandemia não seja um tomar de balanço para o reforço da insustentável “velha economia”, origem de todos os problemas, perpetuada por lobbies que tomaram por reféns tantos decisores políticos.

 

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