Covid-19, uma doença de pobres?

Joana Mortágua, vereadora do Bloco de Esquerda na Câmara Municipal de Almada                                                                                       

Além dos apoios sociais, há dois problemas estruturais em Almada que têm de ser resolvidos rapidamente: transportes e habitação

 

Quem disse que este era um vírus democrático, enganou-se. Claro que o bicho não escolhe entre ricos e pobres na hora do contágio, mas a exposição de uns e outros a ambientes de risco é completamente diferente, tanto quanto o abismo social que os distancia. Essa realidade, que começou a ser desvendada durante o confinamento, salta-nos à vista na tentativa de regresso à “normalidade”: o “normal” é a desigualdade.

Vem isto a propósito do recente aumento do número de casos nas periferias de Lisboa, nomeadamente em bairros degradados da margem sul. Interessa muito pouco se neste momento os surtos estão concentrados noutros concelhos, nas costas dos outros vemos as nossas e, para este efeito, a realidade de Almada não é tão diferente da do Seixal ou de Loures.

O que dita as semelhanças é a nossa condição “periférica”, não apenas em termos geográficos mas sobretudo no acesso a direitos e na concentração de uma população vulnerável que vive e trabalha em condições que impossibilitam a sua proteção. São empregadas domésticas ou de empresas de limpeza, trabalhadores das obras, assistentes operacionais e auxiliares de serviços públicos, caixas de supermercado, trabalhadores sem acesso a teletrabalho que dependem de transportes públicos sobrelotados para se deslocar ou de trabalhos à jorna sem regras de proteção.

São famílias que não ganham o suficiente para pagar a renda de uma casa e por isso vivem em bairros degradados sem condições de higiene ou coabitam em grandes aglomerados familiares. São precisamente essas famílias, mais expostas, que não podem gastar 20 euros por semana em produtos de proteção individual, álcool e máscaras.

O desconfinamento vai expor estas pessoas em primeiro lugar e a última coisa que podemos fazer é fechar os olhos. Infelizmente há gente pobre em todo o país e corremos o risco de ver esse drama a alastrar-se. É tempo de ver bem o que é ser pobre em Almada e robustecer as políticas municipais e nacionais de combate à pobreza.

Sim, é preciso salvar a economia local e combater o desemprego. É preciso criar estímulos para a recuperação do comércio, do turismo. É preciso desconfinar para não morrer da cura, mas nunca à custa dos mais frágeis, dos mais invisibilizados, dos que não se podem proteger. Para isso, e além dos apoios sociais, há dois problemas estruturais que têm de ser resolvidos rapidamente: transportes e habitação, dois dos maiores fatores para a fragilidade social de Almada.

Em Almada há pelo menos 8000 pessoas que esperam por realojamento há décadas. Há famílias a viver em quartos, em anexos, em carros. E há dezenas de milhares de pessoas que dependem de transportes públicos para trabalhar, para chegar a Lisboa ou às fábricas, empresas e serviços dos concelhos vizinhos.

Se o que temos para proteger essas pessoas não for mais do que promessas de realojamento para 2021, um serviço público de transporte fluvial sem barcos suficientes e um serviço privado de transporte rodoviário em lay-off, estamos muito mal. O mundo mudou, a desigualdade agora mata ainda mais e a responsabilidade pública é ainda maior.

Em Almada, o mais importante para conter a doença nova é resolver problemas antigos.

 

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