Desconfinar os transportes públicos

Marco Sargento, membro da Comissão de Utentes de Transportes da Margem Sul                                                                                                                              

 

Em maio e início de junho, durante o período de desconfinamento, os movimentos pendulares foram crescendo, mas os serviços de transporte público não acompanharam este ritmo.

 

Uma das consequências da grave crise de saúde pública que atravessamos e do Estado de Emergência, decretado entre 18 de março e 2 de maio, foi a possibilidade das empresas de transportes públicos recorrerem ao layoff. Em traços gerais, foi possibilitado àquelas empresas que parassem de operar, assumindo apenas um terço do vencimento dos seus trabalhadores durante o período em que o layoff vigorar.

No entanto, mesmo no período de confinamento (março e abril) os movimentos pendulares mantiveram-se, a uma escala muito menor é certo, mas sempre houve pessoas a necessitarem dos transportes públicos para se deslocarem entre a sua casa e o trabalho, razão pela qual a Comissão de Utentes de Transportes da Margem Sul deu imediatamente eco à contestação desta medida. Afinal, como podia o governo exigir a redução da lotação das viaturas e composições para dois terços da capacidade e, ao mesmo tempo, permitir às empresas de transporte o recurso ao layoff? Como podia haver mais oferta de transportes com menos motoristas ao serviço?

Em maio e início de junho, durante o período de desconfinamento, os movimentos pendulares foram crescendo, mas os serviços de transporte público não acompanharam este ritmo.

Em Almada a situação foi desesperante, se a Fertagus e o Metro Sul do Tejo retomaram a circulação a 4 e a 1 de maio, respetivamente, os TST retiraram os anteriores horários e foram anunciando novos horários praticamente carreira a carreira, à medida que estas eram repostas. Já a Transtejo apenas repôs as ligações entre Cacilhas e o Cais do Sodré a 1 de junho e as ligações entre a Trafaria-Porto Brandão-Belém apenas a 18 de julho.

Para além de todas as preocupações e cuidados com a saúde pública, os utentes tiveram que se confrontar com a desarticulação de todos estes operadores de transportes.

O serviço de transportes públicos já apresentava sinais preocupantes no final de 2019 e início de 2020, quando, com o consolidar do novo passe intermodal, o sistema apresentava indicadores de crescimento de procura, mas o investimento na frota e na rede se encontrava estagnado. Muitos de nós nos lembramos das carruagens da Fertagus repletas de utentes, dos autocarros dos TST sobrelotados e que falhavam este e aquele horário, ou da necessidade de intervenção nos cais e navios da Transtejo (que continuam num estado lastimável).

Atualmente o sistema não está a transportar tantos utentes como em janeiro deste ano, mas ninguém pode afirmar que estes problemas não se voltem a colocar com o reinício das aulas presenciais em setembro.

De facto, os alertas dos utentes da Costa da Caparica, Sobreda, Charneca, Almada ou da Trafaria (onde faltam os autocarros da TST na Quinta da Corvina e na Cova do Vapor) têm vindo a aumentar, denunciando a diminuição da frequência, a sobrelotação ou a falta de fiabilidade no cumprimento dos horários anunciados.

A Comissão de Utentes de Transportes da Margem Sul tem tentado dar resposta às diversas solicitações e, já em julho, juntou-se aos protestos da população e da Junta de Freguesia da Caparica e Trafaria contribuindo para a reposição dos horários da ligação fluvial Trafaria-Porto Brandão-Belém. Em junho, mais precisamente no dia de São João, estivemos em frente à Residência Oficial do Primeiro Ministro com os sindicatos do setor dos transportes a reclamar o fim do layoff. O layoff ainda persiste em algumas empresas de transportes, no entanto, a Área Metropolitana de Lisboa acabou por anunciar a 25 de junho a reposição de 90% das circulações das empresas de transporte rodoviário.

Muito há a fazer e a resposta às nossas dificuldades não passa pelo silêncio ou pelo baixar de braços, mas pelo esclarecimento, pela congregação de esforços e pela luta pelo Direito à Mobilidade.

 

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