Utentes da TST acumulam semanas de “pesadelo”

Autocarros lotados, falta de carreiras e horários insuficientes são queixas diárias dos utentes que dependem da Transportes Sul do Tejo para se deslocarem. Atualmente com um nível de serviço na ordem dos 50%, a TST pede as “mesmas condições” dadas aos operadores públicos para reforçar a oferta.

 

Na última semana, André Teixeira dirigiu-se várias vezes ao Centro Sul de manhã cedo para tentar apanhar uma das carreiras que faz a ligação de Almada a Lisboa, mas sem sucesso. “Não consegui entrar, iam a abarrotar”, relata ao ALMADENSE o jovem, residente no Laranjeiro, que acabou por se deslocar ao Pragal para rumar à capital no comboio da Fertagus.

“Há muitas carreiras lotadas”, garante. Utilizador habitual da Transportes Sul do Tejo (TST), o jovem historiador descreve a experiência das últimas semanas como um “pesadelo”. “Estamos ao abandono”, lamenta.

Com o progressivo desconfinamento, a maioria dos operadores de transporte público que opera na margem sul (Fertagus, Transtejo e Metro Transportes do Sul) já retomou os horários completos. A exceção é a TST que, com parte dos trabalhadores em lay-off desde o início de Abril, mantém atualmente uma oferta de serviço na ordem dos 50%.

Com o fim do estado de emergência, a empresa começou a repor algumas das ligações cortadas, nomeadamente as que asseguram as ligações entre a margem Sul e Lisboa. No entanto, dizem os utentes ouvidos pelo ALMADENSE, o serviço público rodoviário na margem sul continua “muito insuficiente”.

Dentro do concelho de Almada, Trafaria e Sobreda são apontadas como duas das zonas mais afetadas pela redução da oferta. “Há um intervalo muito grande entre carreiras”, garante uma passageira residente na Sobreda, que assegura demorar agora “três horas” a chegar a casa quando regressa do trabalho, em Lisboa, porque tem que fazer boa parte do trajeto “a pé”.

“Em Abril fazia algum sentido que os horários fossem limitados porque as pessoas estavam em casa. Mas agora as pessoas voltaram a sair, têm que ir trabalhar e não conseguem porque a oferta é muito fraca”, acrescenta André Teixeira.

Na Comissão de Utentes da Margem Sul expressam também “uma grande preocupação” com o atual serviço da TST, diz ao ALMADENSE Marco Sargento. Argumentando que a operadora, detida pela Arriva, “não está a cumprir a obrigação de prestação de serviço público”, a comissão exige que seja reposta “a totalidade dos horários” que eram praticados no período pré-pandemia, uma vez que com a oferta atual “não se consegue cumprir o distanciamento de segurança”, necessário para conter a propagação da covid-19.

Os testemunhos dos utentes corroboram a afirmação: “ontem apanhei a 133, ia a abarrotar, sem ar condicionado e não se conseguia abrir as janela. É impossível cumprir as recomendações da Direção Geral de Saúde”, diz o residente no Laranjeiro, que aponta também o dedo à Câmara Municipal de Almada, por “não estar no terreno a acompanhar a situação”.

 

TST pede a “mesma compensação” dada aos operadores públicos

Com as validações atualmente a rondar os “20% do que se registava antes da pandemia”, a TST garante que continua a “acompanhar os níveis de procura” e a proceder a “desdobramentos de carreiras” quando necessário, diz ao ALMADENSE Rita Lourenço, diretora comercial e de marketing da empresa.

No entanto, “ao contrário do que acontecia no tempo pré-covid, a procura apresenta pouca consistência, não é igual todos os dias”, o que dificulta a “adaptação” dos horários.

Garantindo que o “descontentamento dos passageiros causa preocupação” junto da empresa, a responsável rejeita, contudo, que a sobrelotação dos veículos seja uma constante. Recordando que os autocarros urbanos têm geralmente mais lugares em pé do que sentados, Rita Lourenço nota que um veículo pode “levar 20 pessoas de pé e estar a cumprir o limite de dois terços da capacidade”. Visualmente, “pode parecer que o veículo está cheio, mas a imagem de sobrelotação pode não ser real”, argumenta. Ainda assim, a responsável admite que nesse nível de lotação “é impossível manter a distância de segurança” recomendada pela DGS.

Por isso, a empresa indica já ter defendido, ao nível da Área Metropolitana de Lisboa (AML) que “todos os operadores estejam a 100%, à semelhança do que acontece ao nível dos operadores de transporte públicos”.

Mas, para isso, “têm que ser dadas aos privados as mesmas condições que estão a ser dadas aos operadores públicos, que têm recebido injeções por parte do Estado” indica a responsável. “O Estado deveria dar aos privados a mesma compensação, para que estes possam reforçar a oferta”, conclui.

Questionada pelo ALMADENSE, fonte da AML (que gere os contratos com os operadores de transporte público privados), assegurou que a entidade tem cumprido com “todos os pagamentos previstos para compensar os operadores privados para que estes tenham a mesma receita que no período homólogo”. A entidade adianta ainda que “os transportes estão no centro das preocupações da AML e das autarquias, e por isso, diariamente são feitos contactos com todos os parceiros para se encontrarem as soluções possíveis”.

 

TST repõe carreiras para Lisboa via ponte 25 de Abril

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *